Bricolar é cartografar, enviesar, ziguezaguear, amontoar heterogeneidades, construir com sobras oriundas de diversos destinos. As estratégias da bricolagem são como táticas de pequenos furtos, colagens de fragmentos. ***A bricolagem é uma atividade de aproveitar coisas usadas, restos, pedaços; é a reapropriação de usos para outros usos, sempre com novos arranjos, para novas funções. Ela também remete ao acaso e a incompletude e em diversos momentos é ordem do incidente, um pequeno acontecimento ou a junção de pequenos imprevistos. Ela tenta captar as experimentações possíveis, a constelação de contágios e interferências. *** Bricolar implica traçar diagramas moventes, colecionar os fatos, seus fragmentos; eventos, articular dados, vestígios, experiências. É como montar uma coleção de pistas, imagens: fotos, desenhos, textos; cacos; restos quaisquer. Bricolar como estratégia de aproximação de um conjunto de vizinhanças desbaratadas, como a construção de um mapa sempre inacabado: organizar amontoando coisas que juntas possibilitem sentidos, sempre múltiplos, paradoxos. *** O importante na técnica da bricolagem é a potência imaginativa e criativa: o bricoleur está apto a executar um grande número de tarefas diversificadas e, ao contrário do engenheiro, não subordina nenhuma delas a obtenção de matérias-primas e de utensílios concebidos e procurados na medida de seu projeto, antecipadamente. A poesia do bricoleur advém do fato de não se limitar a cumprir ou executar planos. Ele não apenas ‘fala’ com as coisas, mas através das coisas; ele narra através das escolhas que faz entre possíveis; ele jamais completa seu projeto e sempre contamina-o com alguma coisa de si. ***Bricolagens, composição de patchworks do cotidiano, pick-ups, vagabundagens, colagens táticas ao invés de estratégicas. A própria arte bricola, não representa, mas apropria, ajunta, desmonta e refaz. Fazer do pick-up um procedimento, multiplicação de sentidos, aberturas, duplo roubo, entre idéias, cada uma se desdobrando na outra. O espaço liso do patchwork não quer dizer homogêneo; ao contrário, é um espaço amorfo, informal, descentrado, sem começo nem fim. ***A vantagem deste método bricoleur é que o objeto nunca envelhece, o trabalho nunca acaba, o fim ou o desfecho são sempre provisórios: como num rizoma, suas entradas são múltiplas. Não só a construção de um texto e as táticas do levantamento dos dados, mas encontrar objetos numa reunião quase aleatória de heterogêneos.
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